O júri popular do caso de feminicídio de Tainara dos Santos, jovem quilombola, de 27 anos, desaparecida desde o dia 9 de outubro de 2024, em Cachoeira, foi remarcado para o dia 12 de março de 2026, e será realizado no Fórum Augusto Teixeira de Freitas, localizado no município.
Inicialmente, o julgamento do ex-companheiro da vítima, George Anderson Santos, estava previsto para dezembro de 2025. O caso é enquadrado como feminicídio sem corpo e o suspeito segue preso preventivamente.
Moradora da comunidade quilombola de Acutinga Motecho, no território da Bacia do Iguape, em Cachoeira, Tainara era trancista e mãe de duas meninas, de 11 e 2 anos. Ela era reconhecida no território pelo cuidado com outras mulheres e crianças, e também por sua atuação comunitária.
No dia de seu desaparecimento, Tainara saiu da comunidade para um encontro com o ex-companheiro, com quem mantinha uma relação marcada por violências. A última vez que foi vista foi no porto de Cachoeira, na companhia de George e de outros homens ainda não identificados.
O acusado apresentou à polícia três versões distintas sobre o que teria ocorrido naquele dia. Desde então, o corpo de Tainara não foi encontrado.
Para Itamara Santos, irmã de Tainara, a ausência de respostas transforma o processo judicial em uma extensão da violência vivida pela família. “Já se passou mais de um ano e a angústia permanece porque é um caso sem corpo. A gente sofre muito porque não sabe o que realmente aconteceu, nem onde ela está. Enquanto ele está preso e recebendo visitas, a nossa família segue sem nenhuma notícia, com minha mãe sofrendo todos os dias e minhas sobrinhas em acompanhamento psicológico. Eu quero justiça. Quero que o júri aconteça e que a gente tenha alguma resposta sobre o que ele fez com minha irmã, mesmo sem acesso aos restos mortais. O que fica é a dor que não passa e a sede de justiça”, disse ela.
O caso de Tainara ocorre em um cenário de agravamento da violência letal contra mulheres negras no Brasil. Dados mais recentes do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que o número de feminicídios bateu recorde no país em 2025: foram 1.470 casos registrados entre janeiro e dezembro. O total supera os 1.464 casos contabilizados em 2024, que até então representavam a maior marca da série histórica. Os registros oficiais de feminicídios apontam para uma média de quatro mulheres mortas por dia no ano passado.
Nos territórios tradicionais, a violência assume contornos ainda mais severos. De acordo com o relatório Racismo e Violência contra Quilombos no Brasil, elaborado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), o feminicídio foi a segunda maior causa de assassinatos de pessoas quilombolas entre 2018 e 2022, representando 31,25% dos casos, ficando atrás apenas das mortes decorrentes de conflitos fundiários (40,62%).
Os dados mostram que a violência de gênero tem se consolidado como uma das principais ameaças à vida de mulheres quilombolas, frequentemente assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, em contextos marcados pela ausência de políticas públicas específicas de prevenção e proteção.
O caso de Tainara, é assessorado pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e a organização TamoJuntas, que co-realizam uma assistência multidisciplinar gratuita para mulheres vítimas e familiares de vítimas da violência doméstica.
Joyce Souza, coordenadora do projeto Quilomba – Pela Vida das Mulheres Negras, do Instituto Odara, afirma que o júri de Tainara é “um passo considerável no acesso à justiça, principalmente se levar em conta as especificidades de um crime com ocultação do cadáver”.
Laina Crisóstomo, da Tamo Juntas, advogada e assistente de acusação no caso, destaca que o desaparecimento de Tainara precisa ser compreendido dentro de uma engrenagem estrutural de violência contra as mulheres.
“Mulheres são vítimas de feminicídio todos os dias, inclusive em Cachoeira. O caso de Tainara é emblemático porque é um feminicídio sem corpo, que deixa duas crianças órfãs e uma comunidade desestruturada. A ausência da despedida prolonga a dor e a insegurança da família. A mobilização social é fundamental para evitar a culpabilização da vítima e para que a família entenda que não está sozinha”, conclui.
Por: Instituto Odara










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