À primeira vista, o 8 de março, de fato, parece ser um dia de reconhecimento e celebração. Mas, basta olhar para os números da violência contra as mulheres no Brasil para perceber que existe um longo abismo entre o discurso e a realidade. O país segue convivendo com uma das formas mais extremas de violência de gênero: o feminicídio.
O Brasil atingiu recordes de casos de feminicídio
nos anos de 2024 e 2025, com 1.458 e 1.518 vítimas em cada ano. Os dados são do
Ministério da Justiça e Segurança Pública. Esses números representam, na
prática, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em crimes
relacionados ao gênero. São mortes que, na maioria das vezes, acontecem dentro
de casa, cometidas por parceiros ou ex-parceiros, e que frequentemente são
precedidas por um histórico de ameaças, agressões e violência doméstica.
Esse cenário escancara uma contradição histórica:
enquanto a sociedade celebra as mulheres em um único dia do calendário, muitas
delas continuam lutando diariamente pelo direito básico de permanecer vivas.
Na Bahia, os dados dos últimos anos têm contribuído
para que o estado permaneça no ranking dos 5 estados do país com maior número
de casos de feminicídio. Conforme divulgado pela Secretaria de Segurança
Pública da Bahia, foram 111 casos em 2024 e 103 em 2025. Em diversas situações,
as vítimas já haviam procurado ajuda ou denunciado seus agressores antes do
crime acontecer.
Vale ressaltar, que a criação da Lei Maria da
Penha foi um marco importante no combate à violência doméstica, assim como
a tipificação do feminicídio no Código Penal Brasileiro, que reconhece o
assassinato de mulheres por razões de gênero como um crime específico. Por
outro lado, o machismo estrutural que sustenta a violência contra mulher continua
profundamente enraizado na sociedade brasileira. Ele aparece na naturalização
do controle sobre o corpo e a vida das mulheres, na culpabilização das vítimas
que sofrem assédio e importunação sexual, na justificação do estupro, e na
tolerância social aos comportamentos abusivos. Muitas vezes, o feminicídio é
apenas o último capítulo de uma longa história de violência que foi ignorada,
relativizada ou tratada como um pequeno problema.
Por isso, talvez a pergunta mais importante a ser
feita no dia 8 de março seja incômoda: o que exatamente estamos celebrando?
Celebrar as conquistas é legítimo. A presença das mulheres nas universidades, no mercado de trabalho e na política segue crescendo.
Mas, enquanto tantas delas continuam sendo desrespeitadas, estupradas e mortas nestes
espaços, e na maioria das vezes, dentro de suas próprias casas, qualquer
comemoração que ignore essa realidade perde o sentido e se torna superficial.
Enquanto o Dia da Mulher celebra conquistas, os
números do feminicídio lembram que a luta pela vida e pelas causas das mulheres ainda está longe de terminar. Esta data deveria ser menos sobre flores e mais
sobre compromisso. Menos sobre marketing e mais sobre políticas públicas. Menos
sobre homenagens simbólicas e mais sobre a garantia concreta de segurança,
dignidade e igualdade para elas.
Porque, no fim das contas, nenhuma sociedade pode
afirmar que respeita suas mulheres enquanto tantas delas continuam morrendo
simplesmente por existirem.










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